Cartões de enfrentamento (Coping Cards)

Desenvolvendo resistência, adaptação e superação com estratégias cientificamente comprovadas na prática!

Por Eduardo Brancaglioni Marquetti Lazaro, CRP 06/199338 em 25/09/2025 às 03:22 | atualizado em 07/07/2026 às 08:20

Tempo estimado de leitura: 5 min

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Em alguns momentos, o problema não é falta de entendimento. A pessoa até reconhece que está exagerando, que está antecipando algo que talvez nem aconteça. Ainda assim, isso não muda o que está sentindo. O corpo reage antes, o pensamento acompanha depois, já enviesado.

Os cartões de enfrentamento aparecem nesse intervalo. Não como uma solução, nem como algo que “corrige” o pensamento de imediato, mas como uma tentativa de reorganizar minimamente o que está acontecendo ali, no meio do processo. É uma ferramenta discreta, muitas vezes vista como simples demais - e justamente por isso, usada de forma superficial.

Na Terapia Cognitivo-Comportamental, a ideia não é criar frases motivacionais ou substituir pensamentos negativos por versões mais agradáveis. Isso costuma falhar. O que se busca é construir respostas que façam sentido para aquela pessoa, dentro da experiência real dela. Algo que não soe artificial quando for lido em um momento de maior ativação emocional.

A estrutura do cartão ajuda nisso, mas não garante. Quando bem construída, ela organiza quatro pontos que, na prática, já estão acontecendo de forma misturada: a situação, a emoção, o pensamento automático e uma possível resposta alternativa.

A situação precisa ser concreta. Não adianta registrar “problemas no trabalho” ou “questões pessoais”. Quanto mais específico, mais útil o cartão tende a ser. Uma reunião, uma mensagem não respondida, um compromisso social - recortes pequenos funcionam melhor porque são reconhecíveis no momento em que ocorrem.

As emoções, por outro lado, nem sempre vêm organizadas. Às vezes é ansiedade com irritação, ou uma sensação difusa difícil de nomear. Ainda assim, tentar identificar já cria um pequeno distanciamento. Não resolve, mas ajuda a não tratar tudo como uma coisa só.

O pensamento automático costuma ser mais direto do que a pessoa gostaria de admitir. Ele aparece pronto, sem filtro: “vai dar errado”, “não vou conseguir”, “isso vai dar problema”. Não é o tipo de conteúdo que se melhora na hora. O primeiro passo é só reconhecer que ele está ali, influenciando o resto.

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A resposta alternativa é a parte mais delicada. Quando ela vira uma tentativa de “pensar positivo”, o cartão perde força. A ideia não é convencer, mas introduzir algum nível de dúvida, ou pelo menos reduzir a certeza absoluta daquele pensamento inicial. Às vezes isso vem na forma de uma lembrança concreta - algo que já aconteceu e não confirmou aquela previsão. Em outras, como uma ação simples que interrompe o ritmo automático, como pausar antes de responder ou mudar o foco por alguns minutos.

Na prática, o efeito do cartão é mais modesto do que muitas pessoas esperam. Ele não elimina a emoção, nem transforma a situação. O que ele faz, quando funciona, é criar uma pequena interrupção. Um espaço curto entre o impulso e a resposta. E, em muitos casos, isso já altera o desfecho.

Sem esse tipo de recurso, a tendência é seguir no automático. A pessoa não escolhe exatamente o que faz; ela reage. O cartão não impede isso completamente, mas pode introduzir uma alternativa que, de outro modo, não apareceria.

Por isso, a forma como ele é construído importa mais do que a técnica em si. Cartões genéricos, copiados ou muito “bem escritos” costumam não funcionar. Eles precisam ter a linguagem da própria pessoa, mesmo que isso deixe o texto imperfeito. Também precisam ser curtos - não por estética, mas porque, em momentos de maior ativação, a leitura longa simplesmente não acontece.

Outro ponto que costuma passar despercebido é que o cartão precisa ser revisitado fora das situações de crise. Quando ele só aparece no momento difícil, tende a soar distante ou pouco convincente. Com o tempo, ajustes são necessários. O que fazia sentido em uma fase pode deixar de funcionar em outra.

Ainda assim, é importante não ampliar o alcance da ferramenta além do que ela pode oferecer. Cartões de enfrentamento não substituem acompanhamento psicológico. Eles funcionam como apoio dentro de um processo maior, que envolve compreensão mais ampla dos padrões de pensamento e comportamento.

Esse cuidado, inclusive, faz parte da própria prática profissional. O uso de técnicas psicológicas pressupõe base científica, responsabilidade e respeito ao contexto de quem está sendo atendido, evitando simplificações ou aplicações inadequadas .

No fim, os cartões não chamam atenção. Não são complexos, não têm aparência sofisticada. Mas, quando bem construídos, costumam aparecer exatamente no momento em que a pessoa mais precisa de algum tipo de organização interna - mesmo que mínima. E, em algumas situações, isso já é suficiente para mudar a direção do que acontece depois.

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Referências bibliográficas

  • Beck, A. T. (1979). Cognitive Therapy of Depression. Guilford Press.Beck, J. S. (2011). Cognitive Behavior Therapy: Basics and Beyond. Guilford Press.Ellis, A., & Dryden, W. (1997). The Practice of Rational Emotive Behavior Therapy. Springer Publishing Company.

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