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O que é apego?

Uma visão acolhedora e baseada em evidências

Por Suzane Martins Brancaglioni, CRP 06/136222 • Publicado em 4 de abril de 2026 • Atualizado em 2 de setembro de 2026

Tempo estimado de leitura: 3 min

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A Teoria do Apego, estabelecida por John Bowlby e Mary Ainsworth, propõe que o vínculo formado nos primeiros anos de vida funciona como um "protótipo" para todas as interações sociais futuras. Esse sistema biológico de busca por proximidade não apenas garante a sobrevivência física do bebê, mas estrutura a arquitetura emocional do cérebro, determinando como o indivíduo processará o medo, a confiança e a intimidade na vida adulta.

Os padrões de apego: da infância à vida adulta

A qualidade da resposta do cuidador às necessidades da criança molda os Modelos Operacionais Internos — mapas mentais que guiam a percepção sobre si mesmo e sobre os outros.

  • Apego Seguro: Resulta de cuidadores sensíveis e responsivos. A criança aprende que é digna de amor e que os outros são confiáveis. No adulto, manifesta-se como facilidade em depender de outros e permitir que outros dependam de si, sem medo excessivo de abandono.
  • Apego Ansioso-Ambivalente: Surge de uma carenagem inconsistente. A criança nunca sabe se será atendida, gerando angústia. O adulto tende a ser hipervigilante a sinais de rejeição, apresentando alta carência emocional e medo constante de perda.
  • Apego Evitativo: Advém de cuidadores distantes ou punitivos diante de demonstrações de vulnerabilidade. A criança aprende a suprimir emoções para evitar a rejeição. O adulto valoriza a autossuficiência extrema e sente desconforto com a proximidade emocional excessiva.
  • Apego Desorganizado: Associado a contextos de medo ou trauma onde o cuidador é a fonte do terror. Gera uma desorganização nas estratégias de enfrentamento, comum em quadros de TEPT Complexo (CID-11: 6B41).

Perspectiva Clínica: CID-11 e DSM-5-TR

Embora o estilo de apego seja uma característica da personalidade, falhas graves no desenvolvimento desse vínculo podem evoluir para transtornos específicos:

  • Transtorno de Apego Reativo (DSM-5-TR: 313.89 | CID-11: 6B44): Caracterizado por um padrão de comportamento inibido e emocionalmente retraído em relação aos cuidadores, fruto de negligência severa.
  • Transtorno de Engajamento Social Desinibido (DSM-5-TR: 313.89 | CID-11: 6B45): Onde a criança interage de forma indiscriminada com estranhos, perdendo a seletividade social necessária para sua proteção.

Fatores que moldam o vínculo

De acordo com o Relatório Mundial de Saúde Mental da OMS (2022), a formação do apego seguro é influenciada por um ecossistema de fatores:

  • Sensibilidade e Responsividade: A capacidade do cuidador de ler os sinais do bebê e responder de forma adequada e tempestiva.
  • Saúde Mental Parental: Condições como a depressão pós-parto ou transtornos de ansiedade não tratados podem interferir na disponibilidade emocional do cuidador (mhGAP da OMS).
  • Ambiente Socioeconômico: O estresse tóxico causado pela pobreza extrema ou violência compromete a estabilidade necessária para o florescimento do vínculo seguro.

Estratégias de mudança e segurança adquirida

A neuroplasticidade permite que padrões de apego inseguros sejam trabalhados e transformados na chamada "segurança adquirida".

  • Psicoterapia Focada no Apego: Abordagens que utilizam a relação terapêutica como uma "base segura" para que o paciente explore traumas passados e desenvolva novas formas de se relacionar.
  • Mentalização: Desenvolver a capacidade de entender os próprios estados mentais e os dos outros, reduzindo reações impulsivas em conflitos.
  • Comunicação Assertiva: Aprender a expressar necessidades de segurança de forma direta, em vez de recorrer a jogos emocionais (ansioso) ou ao silêncio (evitativo).

Autores e obras que dialogam com esta reflexão

  • AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5-TR. 5. ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
  • BOWLBY, J. Apego e perda: volume 1: apego. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
  • DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2021.
  • ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. CID-11: Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde. Genebra: OMS, 2022.
  • ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Relatório Mundial de Saúde Mental: transformar a saúde mental para todos. Genebra: OMS, 2022.

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