A ansiedade sob a lente da ciência

Entre classificação, experiência e interpretação, o que define quando o alerta deixa de ser proteção

Por Suzane Martins Brancaglioni, CRP 06/136222 em 05/11/2025 às 12:26 | atualizado em 16/07/2026 às 09:06

Tempo estimado de leitura: 4 min

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Nem sempre a ansiedade é percebida como um problema. Em muitos contextos, ela aparece como parte do funcionamento esperado, ajustando o corpo diante de desafios, decisões ou riscos. O que começa a chamar atenção é quando esse estado deixa de se dissolver.

Há casos em que a vigilância se prolonga, se intensifica e passa a atravessar o cotidiano. A atenção se volta para o que pode dar errado. O presente perde espaço para o que ainda não aconteceu. E, aos poucos, a experiência deixa de ser resposta e passa a ser antecipação.

O que a ciência tenta organizar

Na tentativa de compreender esse fenômeno, a saúde mental se apoia em sistemas de classificação que organizam padrões observados na prática clínica. A Classificação Internacional de Doenças 11ª Revisão e o DSM-5-TR funcionam como referências para descrever esses quadros.

Dentro da CID-11, os transtornos relacionados à ansiedade e ao medo são agrupados entre os códigos 6B00 e 6B0Z. Essa organização distingue duas experiências centrais: o medo, mais ligado a uma ameaça percebida como imediata, e a ansiedade, relacionada à antecipação de algo futuro.

Essa distinção ajuda a mapear o funcionamento, mas não esgota o que está em jogo. Ela descreve padrões. Não explica, por si só, o sentido da experiência.

Entre o mapa e a experiência

Estudos internacionais vêm testando a aplicabilidade dessas classificações em diferentes contextos clínicos. Um dos trabalhos mais relevantes nesse campo, conduzido por Geoffrey Rebello e colaboradores, avaliou como profissionais de diferentes países utilizam as diretrizes da CID-11 na prática.

Os resultados indicaram que a nova classificação facilita a identificação de quadros como transtorno-de-ansiedade-generalizada-tag, fobias e agorafobia, especialmente ao considerar critérios de duração e impacto funcional. A reorganização dos transtornos em torno do eixo do medo também trouxe maior clareza diagnóstica.

Ao mesmo tempo, o estudo apontou um desafio persistente: diferenciar o que ainda está dentro da variabilidade humana do que passa a configurar um padrão clínico. Nem toda ansiedade indica um transtorno. A fronteira continua sendo um ponto de atenção.

Quando o alerta se torna contínuo

O que define essa passagem não é apenas a intensidade, mas a persistência e o impacto. Quando a ansiedade deixa de ser proporcional ao contexto e começa a interferir na rotina, no sono, na concentração ou nos relacionamentos, ela passa a ocupar outro lugar.

Em muitos casos, o corpo permanece em estado de estresse mesmo sem um estímulo claro. A mente projeta cenários, revisita possibilidades, tenta antecipar falhas. O medo deixa de ser uma resposta situacional e passa a estruturar a experiência.

Esse funcionamento pode levar à evitação de situações, ao isolamento-social e à redução progressiva do campo de ação.

Os limites da classificação

Embora os sistemas diagnósticos sejam fundamentais para a organização do cuidado, eles operam como mapas. E todo mapa simplifica.

A experiência da ansiedade não se reduz a um código. Ela envolve história, contexto, relações e formas particulares de interpretação. Nesse ponto, outras abordagens clínicas, como a psicanálise, deslocam o olhar.

Em vez de apenas descrever o sintoma, procuram interrogá-lo. Não apenas “o que é”, mas “o que isso diz”. O medo, nesse sentido, pode ser entendido não só como excesso de alerta, mas como uma forma de resposta a algo que ainda não foi plenamente simbolizado.

Entre medida e sentido

A tentativa de delimitar critérios — como duração mínima dos sintomas e presença de prejuízo funcional — busca evitar tanto o subdiagnóstico quanto o excesso de enquadramento. A ansiedade precisa ser compreendida dentro de um contexto.

Quando ela impede o movimento, restringe escolhas ou sustenta um estado contínuo de alerta, passa a demandar outro tipo de atenção. Quando aparece de forma transitória, ainda pode estar dentro de um funcionamento esperado.

Essa distinção não é automática. Ela exige escuta, observação e tempo.

Um campo que segue em construção

A ciência avança na tentativa de tornar esse processo mais preciso. Refinar critérios, ajustar classificações, testar aplicabilidade. Ao mesmo tempo, permanece o desafio de não reduzir a experiência humana a categorias fixas.

Entre o rigor técnico e a complexidade da vida psíquica, existe um intervalo. É nele que a ansiedade deixa de ser apenas um conceito e se apresenta como experiência concreta.

E é nesse ponto que a pergunta muda de lugar. Não apenas “qual o diagnóstico”, mas “o que essa ansiedade está fazendo com a forma de viver”.

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Referências bibliográficas

  • WORLD HEALTH ORGANIZATION. International classification of diseases for mortality and morbidity statistics (11th Revision – ICD-11). Geneva: WHO, 2019. Disponível em: https://icd.who.int/
  • AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and statistical manual of mental disorders: DSM-5-TR. 5. ed. rev. Washington, DC: APA Publishing, 2022.
  • REBELLO, T. J. et al. Field testing of the ICD-11 guidelines for anxiety and fear-related disorders. World Psychiatry, v. 18, n. 3, 2019.
  • STEEL, Z. et al. The global prevalence of common mental disorders: a systematic review and meta-analysis. International Journal of Epidemiology, 2014.
  • GBD 2019 MENTAL DISORDERS COLLABORATORS. Global burden of mental disorders. The Lancet Psychiatry, 2022.

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