O desconhecido na órbita da alma

Incerteza cósmica, ansiedade e a luta contra o desamparo

Por Suzane Martins Brancaglioni, CRP 06/136222 em 31/10/2025 às 18:52 | atualizado em 16/07/2026 às 04:45

Tempo estimado de leitura: 5 min

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O corpo humano pode se tornar um deserto de sensações quando a vida perde a cor. Eu vejo que a necessidade humana de previsibilidade e controle não é apenas uma estratégia moderna de gestão, mas uma programação ancestral. A neurobiologia do medo demonstra que a amígdala interpreta o desconhecido como um perigo potencial, ativando a resposta de luta ou fuga (LeDoux, 2015). No palco da vida contemporânea, eventos de escala global, como a detecção do cometa C/2025 N1 (3I/ATLAS), desafiam diretamente essa necessidade de controle. Apesar de agências como a NASA (2025) confirmarem a inexistência de ameaça de impacto, a natureza enigmática e as especulações midiáticas alimentam a ruminação catastrófica.

Introdução técnica breve

A ansiedade, segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), é a antecipação apreensiva de um infortúnio futuro. Para fins de estatística global, a Classificação Internacional de Doenças (CID-11) lista o Transtorno de Ansiedade Generalizada sob o código 6B00. Os critérios clínicos detalhados no DSM-5, por sua vez, são essenciais para o diagnóstico individual. Dados do Global Burden of Disease (GBD) de 2019 apontam a alta prevalência desses transtornos, que contribuem significativamente para os anos vividos com incapacidade globalmente. No entanto, a Psicanálise nos convida a ir além da descrição do sintoma e a interrogar o que a incerteza cósmica nos revela sobre nossa estrutura psíquica.

A ameaça do que não tem nome — A psicanálise diante do cósmico

O cometa C/2025 N1 (3I/ATLAS), por vir do "não mapeado", representa o máximo do desconhecido não-domesticável. Ele aciona o desamparo fundamental (Hilflosigkeit), conceito central na obra de Freud. O desamparo é a experiência de nossa total impotência diante das grandes forças do mundo (a natureza, o destino, a morte). A passagem de um objeto anômalo, que não podemos controlar nem prever com totalidade, rasga o véu de segurança que a civilização tenta construir. A mente ansiosa, então, tenta desesperadamente retomar o controle através da ruminação catastrófica: o sujeito prefere a certeza de um desastre iminente (que ele pode, teoricamente, tentar evitar ou planejar) à angústia líquida e intolerável da completa incerteza.

No consultório, essa ansiedade cósmica se manifesta em mecanismos-chave:

  • Falha do Eu: A percepção de que a ciência, a tecnologia ou o poder humano não podem garantir a segurança absoluta desestabiliza o senso de onipotência que, em alguma medida, todos sustentamos.
  • O Overload e a Mania de Informação: O doomscrolling e a busca incessante por updates (muitas vezes sensacionalistas) são tentativas maníacas de preencher o vazio da incerteza com dados. É um ritual de controle que, ironicamente, mantém o sistema nervoso simpático em estado de alerta permanente.

Se a sua angústia tem se manifestado de forma persistente, iniciar um processo de análise pode ser o caminho para compreender o que está em jogo.

Estratégias de manejo para o que não se pode controlar

Embora a Psicanálise explore o sentido desse medo, abordagens focadas no sintoma, como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), oferecem ferramentas valiosas para devolver a autonomia ao indivíduo.

1. Reestruturação cognitiva (TCC): Da catástrofe ao fato

A TCC atua diretamente na identificação e modificação das crenças disfuncionais. O medo de "algo que a ciência não consegue prever" é desconstruído através do Questionamento Socrático:

  • Foco na Evidência: Confrontar a especulação (o cometa é uma ameaça) com a realidade verificada (a NASA e outras agências monitoram e afirma que não há risco de colisão).
  • Controle vs. Influência: A técnica ajuda a diferenciar o que está no círculo de controle (minha rotina, minha higiene de sono) do que está no círculo de preocupação (o cometa C/2025 N1 (3I/ATLAS)).

2. Aceitação e desfusão (ACT): Conviver com o desamparo

A ACT propõe uma postura de aceitação radical da inevitável incerteza da vida:

  • Aceitação do Medo: Em vez de lutar para não sentir medo ou ansiedade, o paciente aprende a tolerar a emoção como uma resposta natural, não como um sinal de perigo iminente.
  • Desfusão Cognitiva: O pensamento catastrófico ("Vamos ser atingidos") é visto como um evento mental ("Eu estou tendo o pensamento de que podemos ser atingidos"), retirando seu poder de fato. O paciente é encorajado a redirecionar a energia do incontrolável para a Ação Comprometida com Valores — família, trabalho ou saúde.

A escuta clínica e o sentido do limite

O medo do desconhecido é o que nos mantém cautelosos, mas a ansiedade patológica é o que nos paralisa e nos impede de viver. O evento C/2025 N1 (3I/ATLAS) e outros fenômenos de grande escala são um lembrete de que a saúde mental reside não em eliminar a incerteza (pois ela é inerente à existência), mas em desenvolver a capacidade de tolerá-la.

Se o medo do desconhecido está limitando atividades diárias, causando sofrimento intenso ou impactando o sono e as relações, é fundamental buscar auxílio profissional. A Psicanálise, nesse contexto, pode interrogar: Por que esta incerteza específica aciona tamanha desorganização? O diagnóstico, seja ele TAG ou um Transtorno de Pânico, fornece a estrutura para o tratamento. O cuidado psicológico ajuda no manejo desses sentimentos, permitindo ao sujeito negociar sua necessidade de controle com a realidade do desamparo. Na prática, isso significa perguntar: 'Essa ansiedade impede o paciente de viver, ou apenas incomoda?'. A resposta define o diagnóstico — e o cuidado.

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Referências bibliográficas

  • American Psychiatric Association. (2013). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed.). Arlington, VA: American Psychiatric Publishing.GBD 2019 Mental Disorders Collaborators. (2022). Global, regional, and national burden of 12 mental disorders in 204 countries and territories, 1990–2019: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2019. The Lancet Psychiatry, 9(3), 185-199. https://doi.org/10.1016/S2215-0366(21)00392-8LE Doux, J. E. (2015). Anxious: Using the Brain to Understand and Treat Fear and Anxiety. New York: Viking.NASA. (2025). JPL Small-Body Database Browser: C/2025 N1. Recuperado de: https://ssd.jpl.nasa.gov/sbdb.cgi?sstr=C/2025%20N1;old=0;orb=1;cov=0;log=0;cad=0#orbWorld Health Organization (WHO). (2022). International Classification of Diseases 11th Revision (ICD-11): 6B00 Generalized anxiety disorder. Recuperado de: https://icd.who.int/browse11/l-m/en#/http%3a%2f%2fid.who.int%2ficd%2fentity%2f986420577

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