O corpo humano pode se tornar um deserto de sensações quando a vida perde a cor. Eu vejo que a necessidade humana de previsibilidade e controle não é apenas uma estratégia moderna de gestão, mas uma programação ancestral. A neurobiologia do medo demonstra que a amígdala interpreta o desconhecido como um perigo potencial, ativando a resposta de luta ou fuga (LeDoux, 2015). No palco da vida contemporânea, eventos de escala global, como a detecção do cometa C/2025 N1 (3I/ATLAS), desafiam diretamente essa necessidade de controle. Apesar de agências como a NASA (2025) confirmarem a inexistência de ameaça de impacto, a natureza enigmática e as especulações midiáticas alimentam a ruminação catastrófica.
Introdução técnica breve
A ansiedade, segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), é a antecipação apreensiva de um infortúnio futuro. Para fins de estatística global, a Classificação Internacional de Doenças (CID-11) lista o Transtorno de Ansiedade Generalizada sob o código 6B00. Os critérios clínicos detalhados no DSM-5, por sua vez, são essenciais para o diagnóstico individual. Dados do Global Burden of Disease (GBD) de 2019 apontam a alta prevalência desses transtornos, que contribuem significativamente para os anos vividos com incapacidade globalmente. No entanto, a Psicanálise nos convida a ir além da descrição do sintoma e a interrogar o que a incerteza cósmica nos revela sobre nossa estrutura psíquica.
A ameaça do que não tem nome — A psicanálise diante do cósmico
O cometa C/2025 N1 (3I/ATLAS), por vir do "não mapeado", representa o máximo do desconhecido não-domesticável. Ele aciona o desamparo fundamental (Hilflosigkeit), conceito central na obra de Freud. O desamparo é a experiência de nossa total impotência diante das grandes forças do mundo (a natureza, o destino, a morte). A passagem de um objeto anômalo, que não podemos controlar nem prever com totalidade, rasga o véu de segurança que a civilização tenta construir. A mente ansiosa, então, tenta desesperadamente retomar o controle através da ruminação catastrófica: o sujeito prefere a certeza de um desastre iminente (que ele pode, teoricamente, tentar evitar ou planejar) à angústia líquida e intolerável da completa incerteza.
No consultório, essa ansiedade cósmica se manifesta em mecanismos-chave:
- Falha do Eu: A percepção de que a ciência, a tecnologia ou o poder humano não podem garantir a segurança absoluta desestabiliza o senso de onipotência que, em alguma medida, todos sustentamos.
- O Overload e a Mania de Informação: O doomscrolling e a busca incessante por updates (muitas vezes sensacionalistas) são tentativas maníacas de preencher o vazio da incerteza com dados. É um ritual de controle que, ironicamente, mantém o sistema nervoso simpático em estado de alerta permanente.
Se a sua angústia tem se manifestado de forma persistente, iniciar um processo de análise pode ser o caminho para compreender o que está em jogo.
Estratégias de manejo para o que não se pode controlar
Embora a Psicanálise explore o sentido desse medo, abordagens focadas no sintoma, como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), oferecem ferramentas valiosas para devolver a autonomia ao indivíduo.
1. Reestruturação cognitiva (TCC): Da catástrofe ao fato
A TCC atua diretamente na identificação e modificação das crenças disfuncionais. O medo de "algo que a ciência não consegue prever" é desconstruído através do Questionamento Socrático:
- Foco na Evidência: Confrontar a especulação (o cometa é uma ameaça) com a realidade verificada (a NASA e outras agências monitoram e afirma que não há risco de colisão).
- Controle vs. Influência: A técnica ajuda a diferenciar o que está no círculo de controle (minha rotina, minha higiene de sono) do que está no círculo de preocupação (o cometa C/2025 N1 (3I/ATLAS)).
2. Aceitação e desfusão (ACT): Conviver com o desamparo
A ACT propõe uma postura de aceitação radical da inevitável incerteza da vida:
- Aceitação do Medo: Em vez de lutar para não sentir medo ou ansiedade, o paciente aprende a tolerar a emoção como uma resposta natural, não como um sinal de perigo iminente.
- Desfusão Cognitiva: O pensamento catastrófico ("Vamos ser atingidos") é visto como um evento mental ("Eu estou tendo o pensamento de que podemos ser atingidos"), retirando seu poder de fato. O paciente é encorajado a redirecionar a energia do incontrolável para a Ação Comprometida com Valores — família, trabalho ou saúde.
A escuta clínica e o sentido do limite
O medo do desconhecido é o que nos mantém cautelosos, mas a ansiedade patológica é o que nos paralisa e nos impede de viver. O evento C/2025 N1 (3I/ATLAS) e outros fenômenos de grande escala são um lembrete de que a saúde mental reside não em eliminar a incerteza (pois ela é inerente à existência), mas em desenvolver a capacidade de tolerá-la.
Se o medo do desconhecido está limitando atividades diárias, causando sofrimento intenso ou impactando o sono e as relações, é fundamental buscar auxílio profissional. A Psicanálise, nesse contexto, pode interrogar: Por que esta incerteza específica aciona tamanha desorganização? O diagnóstico, seja ele TAG ou um Transtorno de Pânico, fornece a estrutura para o tratamento. O cuidado psicológico ajuda no manejo desses sentimentos, permitindo ao sujeito negociar sua necessidade de controle com a realidade do desamparo. Na prática, isso significa perguntar: 'Essa ansiedade impede o paciente de viver, ou apenas incomoda?'. A resposta define o diagnóstico — e o cuidado.