O que é TDAH?

Guia Completo sobre o Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade

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03/02/2026 às 09:30

Tempo de leitura: 5m

O Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é uma condição neurobiológica de caráter crônico, classificada pelo DSM-5-TR como um transtorno do neurodesenvolvimento. Diferente de comportamentos passageiros de agitação ou distração, o TDAH envolve um padrão persistente que interfere diretamente na funcionalidade e no desenvolvimento do indivíduo. Não se trata de "falta de vontade", mas de uma alteração no funcionamento de regiões cerebrais responsáveis pelas chamadas funções executivas.

A neurobiologia do transtorno: o que acontece no cérebro?

Para compreender o TDAH, é preciso olhar para o córtex pré-frontal e para os gânglios da base. Nessas regiões, há uma disponibilidade irregular de neurotransmissores essenciais, principalmente a dopamina e a noradrenalina. A dopamina atua no sistema de recompensa e na motivação, enquanto a noradrenalina é fundamental para o estado de alerta e foco.

No cérebro com TDAH, a comunicação entre os neurônios nessas áreas é menos eficiente, o que dificulta a filtragem de estímulos. Isso explica por que uma pessoa com o transtorno pode se distrair com um ruído baixo enquanto tenta ler, ou por que sente uma necessidade impulsiva de agir antes de processar as consequências.

Sinais e sintomas do TDAH segundo o DSM-5-TR

O diagnóstico é pautado em critérios rigorosos. Os sintomas devem estar presentes antes dos 12 anos, manifestar-se em pelo menos dois ambientes (ex: casa e trabalho) e causar prejuízo clínico significativo.

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Domínio da desatenção

Para adultos, exige-se pelo menos 5 sintomas; para crianças, 6 ou mais:

  1. Dificuldade em sustentar a atenção: O indivíduo "divaga" em conversas ou leituras longas.
  2. Erros por descuido: Falta de atenção a detalhes em relatórios ou tarefas escolares.
  3. Desorganização: Dificuldade em sequenciar tarefas, gerenciar horários e manter o ambiente de trabalho em ordem.
  4. Procrastinação de esforço mental: Uma resistência intrínseca a atividades que demandam concentração prolongada.

Domínio da hiperatividade e impulsividade

  1. Inquietude motora: Dificuldade em permanecer sentado em reuniões ou refeições.
  2. Impulsividade verbal: Interromper falas alheias ou responder antes da pergunta ser concluída.
  3. Dificuldade de espera: Ansiedade acentuada em filas ou situações que exigem paciência.

O panorama do TDAH no Brasil e no mundo

A Organização Mundial da Saúde (OMS), na CID-11, reforça que o TDAH afeta cerca de 5% a 8% das crianças e aproximadamente 2,5% a 5% dos adultos. No Brasil, o maior desafio é o diagnóstico em adultos, que muitas vezes chegam ao consultório tratando sintomas secundários, como ansiedade ou depressão, sem saber que a causa base é um TDAH não identificado na infância.

Na idade adulta, a hiperatividade motora costuma ser internalizada, manifestando-se como um sentimento constante de ansiedade ou uma "mente que nunca para".

Diagnóstico: o processo ético e multidisciplinar

Conforme as diretrizes do Conselho Federal de Psicologia (CFP), o diagnóstico deve ser cuidadoso para evitar a patologização de comportamentos normais. O processo é clínico e envolve:

  1. Anamnese Detalhada: Investigação do histórico do desenvolvimento desde a infância.
  2. Escalas Validadas: Uso de instrumentos como o ASRS-18 (adultos) e o SNAP-IV (crianças).
  3. Avaliação Neuropsicológica: Testes específicos para medir memória de trabalho, atenção seletiva e controle inibitório.

É fundamental a investigação de comorbidades. Cerca de 50% dos pacientes possuem transtornos associados, como transtornos de oposição desafiante (em crianças) ou transtornos de humor e ansiedade (em adultos).

Tratamento multimodal: o que a ciência comprova?

O tratamento mais eficaz é o multimodal, que integra diferentes frentes de intervenção para garantir autonomia ao paciente.

Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)

A TCC é a intervenção psicoterapêutica com maior nível de evidência para o TDAH. Ela foca no treinamento de habilidades:

  1. Manejo de tempo: Uso de técnicas como o método Pomodoro e agendas visuais.
  2. Reestruturação Cognitiva: Trabalha a autoimagem negativa construída por anos de críticas externas.
  3. Psicoeducação: Entender o transtorno é o primeiro passo para o autocontrole.

Intervenção Farmacológica

Medicamentos estimulantes (como metilfenidato e lisdexanfetamina) ajudam a equilibrar a química cerebral, melhorando o foco e reduzindo a impulsividade. O uso deve ser sempre acompanhado por um psiquiatra ou neurologista.

Mitos e verdades: combatendo o estigma

  1. Mito: "TDAH é falta de disciplina".
  2. Verdade: É uma condição com hereditariedade de cerca de 70%, tão forte quanto a da altura física.
  3. Mito: "Ritalina causa dependência se usada corretamente".
  4. Verdade: Quando prescrita por profissionais, a medicação auxilia na prevenção de abusos de outras substâncias, pois estabiliza a busca por dopamina.
  5. Verdade: O hiperfoco permite que pessoas com TDAH sejam extremamente produtivas em temas de alto interesse, desde que saibam gerenciar a alternância de tarefas.

Conclusão e próximos passos

O TDAH não define a inteligência ou o caráter de uma pessoa, mas define a forma como ela interage com o mundo. O diagnóstico precoce e o suporte ético, como defendido pelo CFP, permitem que o indivíduo transforme desafios em estratégias de sucesso. Se você se identifica com esses sinais, buscar uma avaliação profissional é o ato mais importante para retomar as rédeas da sua trajetória pessoal e profissional.

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Foto do profissional Eduardo Brancaglioni Marquetti Lazaro
Eduardo Brancaglioni Marquetti Lazaro
CRP 06/199338
Mogi das Cruzes/SP CRP verificado em 28/01/26 18:58
Possui vagas para atendimento social
Referências
Referências técnico-científicas:

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION (APA). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: DSM-5-TR. 5. ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023. (Fonte primária para os critérios de diagnóstico e classificação de sintomas).

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília, 2005. (Base para as diretrizes de diagnóstico ético e não patologizante).

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). Resolução nº 002/2003 e notas técnicas sobre a avaliação psicológica. (Diretrizes para o uso de testes e escalas validadas).

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-11). Genebra, 2022. (Referência para a prevalência e classificação global do transtorno).

BARKLEY, Russell A. Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade: Manual para Diagnóstico e Tratamento. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2020. (Considerado a maior autoridade mundial em TDAH e funções executivas).

Estudos e diretrizes complementares:

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DO DÉFICIT DE ATENÇÃO (ABDA). Dados epidemiológicos e estatísticas sobre o TDAH no cenário brasileiro.

KNAPP, Paulo et al. Terapia Cognitivo-Comportamental na Prática Psiquiátrica. Porto Alegre: Artmed, 2004. (Referência para os protocolos de tratamento multimodal e TCC).

FARAONE, Stephen V. et al. The World Federation of ADHD International Consensus Statement. Publicado em Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 2021. (Consenso mundial com 208 afirmações baseadas em evidências sobre o transtorno).
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