O Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é uma condição neurobiológica de caráter crônico, classificada pelo DSM-5-TR como um transtorno do neurodesenvolvimento. Diferente de comportamentos passageiros de agitação ou distração, o TDAH envolve um padrão persistente que interfere diretamente na funcionalidade e no desenvolvimento do indivíduo. Não se trata de "falta de vontade", mas de uma alteração no funcionamento de regiões cerebrais responsáveis pelas chamadas funções executivas.
A neurobiologia do transtorno: o que acontece no cérebro?
Para compreender o TDAH, é preciso olhar para o córtex pré-frontal e para os gânglios da base. Nessas regiões, há uma disponibilidade irregular de neurotransmissores essenciais, principalmente a dopamina e a noradrenalina. A dopamina atua no sistema de recompensa e na motivação, enquanto a noradrenalina é fundamental para o estado de alerta e foco.
No cérebro com TDAH, a comunicação entre os neurônios nessas áreas é menos eficiente, o que dificulta a filtragem de estímulos. Isso explica por que uma pessoa com o transtorno pode se distrair com um ruído baixo enquanto tenta ler, ou por que sente uma necessidade impulsiva de agir antes de processar as consequências.
Sinais e sintomas do TDAH segundo o DSM-5-TR
O diagnóstico é pautado em critérios rigorosos. Os sintomas devem estar presentes antes dos 12 anos, manifestar-se em pelo menos dois ambientes (ex: casa e trabalho) e causar prejuízo clínico significativo.
Domínio da desatenção
Para adultos, exige-se pelo menos 5 sintomas; para crianças, 6 ou mais:
- Dificuldade em sustentar a atenção: O indivíduo "divaga" em conversas ou leituras longas.
- Erros por descuido: Falta de atenção a detalhes em relatórios ou tarefas escolares.
- Desorganização: Dificuldade em sequenciar tarefas, gerenciar horários e manter o ambiente de trabalho em ordem.
- Procrastinação de esforço mental: Uma resistência intrínseca a atividades que demandam concentração prolongada.
Domínio da hiperatividade e impulsividade
- Inquietude motora: Dificuldade em permanecer sentado em reuniões ou refeições.
- Impulsividade verbal: Interromper falas alheias ou responder antes da pergunta ser concluída.
- Dificuldade de espera: Ansiedade acentuada em filas ou situações que exigem paciência.
O panorama do TDAH no Brasil e no mundo
A Organização Mundial da Saúde (OMS), na CID-11, reforça que o TDAH afeta cerca de 5% a 8% das crianças e aproximadamente 2,5% a 5% dos adultos. No Brasil, o maior desafio é o diagnóstico em adultos, que muitas vezes chegam ao consultório tratando sintomas secundários, como ansiedade ou depressão, sem saber que a causa base é um TDAH não identificado na infância.
Na idade adulta, a hiperatividade motora costuma ser internalizada, manifestando-se como um sentimento constante de ansiedade ou uma "mente que nunca para".
Diagnóstico: o processo ético e multidisciplinar
Conforme as diretrizes do Conselho Federal de Psicologia (CFP), o diagnóstico deve ser cuidadoso para evitar a patologização de comportamentos normais. O processo é clínico e envolve:
- Anamnese Detalhada: Investigação do histórico do desenvolvimento desde a infância.
- Escalas Validadas: Uso de instrumentos como o ASRS-18 (adultos) e o SNAP-IV (crianças).
- Avaliação Neuropsicológica: Testes específicos para medir memória de trabalho, atenção seletiva e controle inibitório.
É fundamental a investigação de comorbidades. Cerca de 50% dos pacientes possuem transtornos associados, como transtornos de oposição desafiante (em crianças) ou transtornos de humor e ansiedade (em adultos).
Tratamento multimodal: o que a ciência comprova?
O tratamento mais eficaz é o multimodal, que integra diferentes frentes de intervenção para garantir autonomia ao paciente.
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)
A TCC é a intervenção psicoterapêutica com maior nível de evidência para o TDAH. Ela foca no treinamento de habilidades:
- Manejo de tempo: Uso de técnicas como o método Pomodoro e agendas visuais.
- Reestruturação Cognitiva: Trabalha a autoimagem negativa construída por anos de críticas externas.
- Psicoeducação: Entender o transtorno é o primeiro passo para o autocontrole.
Intervenção Farmacológica
Medicamentos estimulantes (como metilfenidato e lisdexanfetamina) ajudam a equilibrar a química cerebral, melhorando o foco e reduzindo a impulsividade. O uso deve ser sempre acompanhado por um psiquiatra ou neurologista.
Mitos e verdades: combatendo o estigma
- Mito: "TDAH é falta de disciplina".
- Verdade: É uma condição com hereditariedade de cerca de 70%, tão forte quanto a da altura física.
- Mito: "Ritalina causa dependência se usada corretamente".
- Verdade: Quando prescrita por profissionais, a medicação auxilia na prevenção de abusos de outras substâncias, pois estabiliza a busca por dopamina.
- Verdade: O hiperfoco permite que pessoas com TDAH sejam extremamente produtivas em temas de alto interesse, desde que saibam gerenciar a alternância de tarefas.
Conclusão e próximos passos
O TDAH não define a inteligência ou o caráter de uma pessoa, mas define a forma como ela interage com o mundo. O diagnóstico precoce e o suporte ético, como defendido pelo CFP, permitem que o indivíduo transforme desafios em estratégias de sucesso. Se você se identifica com esses sinais, buscar uma avaliação profissional é o ato mais importante para retomar as rédeas da sua trajetória pessoal e profissional.
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION (APA). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: DSM-5-TR. 5. ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023. (Fonte primária para os critérios de diagnóstico e classificação de sintomas).
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília, 2005. (Base para as diretrizes de diagnóstico ético e não patologizante).
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). Resolução nº 002/2003 e notas técnicas sobre a avaliação psicológica. (Diretrizes para o uso de testes e escalas validadas).
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-11). Genebra, 2022. (Referência para a prevalência e classificação global do transtorno).
BARKLEY, Russell A. Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade: Manual para Diagnóstico e Tratamento. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2020. (Considerado a maior autoridade mundial em TDAH e funções executivas).
Estudos e diretrizes complementares:
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DO DÉFICIT DE ATENÇÃO (ABDA). Dados epidemiológicos e estatísticas sobre o TDAH no cenário brasileiro.
KNAPP, Paulo et al. Terapia Cognitivo-Comportamental na Prática Psiquiátrica. Porto Alegre: Artmed, 2004. (Referência para os protocolos de tratamento multimodal e TCC).
FARAONE, Stephen V. et al. The World Federation of ADHD International Consensus Statement. Publicado em Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 2021. (Consenso mundial com 208 afirmações baseadas em evidências sobre o transtorno).