O que são Cartões de Enfrentamento?

Como uma ferramenta simples pode fortalecer o controle emocional e transformar o aprendizado terapêutico em prática diária

Por

03/02/2026 às 09:17

Tempo de leitura: 4m

Na psicoterapia moderna, sabe-se que as mudanças mais profundas não acontecem apenas durante as sessões, mas também no dia a dia do paciente. Uma das ferramentas mais úteis para levar o que é aprendido no consultório para a vida real são os Cartões de Enfrentamento. Apesar de parecerem simples lembretes, eles são recursos terapêuticos muito importantes — ajudam a reorganizar pensamentos, controlar emoções e manter o equilíbrio diante de situações difíceis.

Por que os cartões funcionam?

Quando sentimos medo, ansiedade ou estresse, o cérebro ativa um sistema de emergência, comandado pela amígdala. Nesse momento, entramos em “modo de sobrevivência” — o corpo se prepara para lutar ou fugir, e a parte racional do cérebro (o córtex pré-frontal) reduz sua atividade. É por isso que, em uma crise de ansiedade, por exemplo, a pessoa tem tanta dificuldade de pensar com clareza.

O cartão de enfrentamento funciona como uma “ajuda externa” para lembrar o que foi aprendido em terapia em momentos de calma. Ele serve como um guia rápido para recuperar o controle. Ao ler o cartão durante uma crise, o paciente ativa novamente o pensamento lógico e direciona o cérebro para respostas mais equilibradas.

Tipos de cartões e como usá-los

Os cartões de enfrentamento podem ser personalizados conforme a necessidade de cada pessoa. Veja os tipos mais comuns usados em terapia:

Imagem do artigo: O que são Cartões de Enfrentamento?
  1. Cartões para lidar com pensamentos negativos
  2. Indicados para casos de ansiedade e depressão. Eles ajudam a corrigir pensamentos automáticos que distorcem a realidade.
  3. Exemplo: “Eu já senti isso antes e sempre passou. É apenas uma reação do corpo que dura alguns minutos. Eu consigo lidar com esse desconforto.”
  4. Cartões de motivação e ação
  5. Muito usados no tratamento da depressão, servem para lembrar a importância de pequenas ações diárias — mesmo quando a vontade é ficar parado.
  6. Exemplo: “Levantar e caminhar um pouco pode melhorar meu humor. Ficar parado me deixa pior.”
  7. Cartões de manejo de crise
  8. Indicados para quem sofre com ataques de pânico ou lembranças traumáticas. Eles funcionam como um mini-plano de ação.
  9. Exemplo: “1. Respire fundo (4-2-6); 2. Observe três coisas ao seu redor; 3. Deixe a sensação passar sem lutar contra ela.”

Ética e boas práticas

Os cartões de enfrentamento devem ser construídos junto com o psicólogo, respeitando sempre o Código de Ética Profissional do Psicólogo. Isso garante que o conteúdo seja verdadeiro, útil e baseado em evidências — nunca em frases motivacionais vazias.

Enfrentamento não é pensamento positivo

Um erro comum é achar que o cartão deve “animar” o paciente com frases como “Vai dar tudo certo”. Isso fere o princípio da realidade. O objetivo do enfrentamento é lidar com os fatos como eles são, não negá-los. A força vem da capacidade de suportar e manejar o momento difícil, com base em recursos internos reais.

Caminho para a autonomia

O cartão de enfrentamento é uma ferramenta temporária. Com o tempo e a prática, o que está escrito nele deixa de ser apenas uma frase no papel e passa a fazer parte do modo como a pessoa pensa. Quando isso acontece, o cartão cumpre sua missão: ajudar o paciente a desenvolver autonomia emocional.

Como escrever um bom cartão

Para que o cartão funcione bem, ele deve seguir algumas recomendações simples:

  1. Acessível: Fique sempre à mão — no celular, na carteira ou em um lugar visível.
  2. Curto e claro: Em momentos de crise, é difícil ler textos longos. Frases breves funcionam melhor.
  3. Personalizado: Use palavras que façam sentido para a pessoa, com base em sua história e linguagem.

Conclusão

Os cartões de enfrentamento são uma ponte entre o consultório e a vida real. Eles traduzem o aprendizado da terapia em pequenas ações práticas que ajudam o cérebro a recuperar o equilíbrio emocional. Quando usados de forma ética, consciente e personalizada, tornam-se aliados poderosos no cuidado com a saúde mental e na conquista da autonomia pessoal.

Este artigo foi útil para você? Sua opinião é importante para nós.

Foto do profissional Eduardo Brancaglioni Marquetti Lazaro
Eduardo Brancaglioni Marquetti Lazaro
CRP 06/199338
Mogi das Cruzes/SP CRP verificado em 28/01/26 18:58
Possui vagas para atendimento social
Referências
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília: CFP, 2005.

BECK, Judith S. Terapia Cognitivo-Comportamental: teoria e prática. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2013.

OCHSNER, Kevin N.; GROSS, James J. Cognitive emotion regulation: Insights from social cognitive and affective neuroscience. Current Directions in Psychological Science, v. 17, n. 2, p. 153–158, 2008.

BIRCHER, Geert A.; CLARK, David M. Behavioral experiments in cognitive therapy: practical guidelines for patients and therapists. Cognitive and Behavioral Practice, v. 27, n. 2, p. 142–155, 2020.
Se você está passando por uma crise suicida, ligue para o CVV. O atendimento é realizado pelo site www.cvv.org.br. ou no telefone 188, a ligação é gratuita, 24h. Em caso de emergência, procure o hospital mais próximo. Havendo risco de morte, ligue para o SAMU no telefone 192.