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Arthur Aron e as 36 perguntas

O estudo que popularizou um experimento sobre intimidade — e por que ele continua sendo discutido

Por Eduardo Brancaglioni Marquetti Lazaro, CRP 06/199338 • Publicado em 20 de junho de 2026 • Atualizado em 3 de setembro de 2026

Tempo estimado de leitura: 5 min

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Resumo do artigo

Arthur Aron, psicólogo social, desenvolveu as 36 perguntas para explorar a construção de intimidade entre pessoas. Seu trabalho se baseia no modelo de autoexpansão, que sugere que relacionamentos não se formam apenas por afinidade, mas também pela incorporação de elementos do outro à identidade. O experimento, publicado em 1997, consiste em uma sequência de perguntas que promove a autorrevelação mútua, podendo acelerar a sensação de proximidade. No entanto, a popularização do estudo gerou a interpretação errônea de que as perguntas garantem conexão, quando, na verdade, elas organizam uma experiência que depende de fatores como tempo e reciprocidade. Assim, Aron não criou uma fórmula mágica, mas um método para observar a dinâmica da intimidade.

Quem é Arthur Aron e por que as 36 perguntas continuam sendo tão comentadas

A ideia de que é possível criar proximidade entre duas pessoas por meio de um conjunto de perguntas estruturadas parece simples demais para ser levada a sério. Ainda assim, o experimento que ficou conhecido como as 36 perguntas de Arthur Aron continua sendo repetido, adaptado e compartilhado como se tivesse encontrado um atalho para algo que, na prática, costuma levar tempo.

Esse modelo foi desenvolvido pelo psicólogo social Arthur Aron, professor e pesquisador da State University of New York at Stony Brook. Ao lado de sua esposa, a também pesquisadora Elaine Aron, ele dedicou décadas ao estudo científico do amor, da intimidade e da formação de vínculos. O que torna seu trabalho relevante não é apenas o tema, mas a tentativa de transformar algo subjetivo — como a conexão emocional — em algo observável dentro de um experimento.

O principal eixo das pesquisas de Aron é o modelo de autoexpansão. A ideia é que as pessoas não se conectam apenas por afinidade, mas também porque, ao se relacionarem, passam a incorporar elementos do outro à própria identidade. Isso inclui interesses, perspectivas e formas de perceber o mundo. Em termos simples, o vínculo amplia quem a pessoa é — ou acredita ser.

É dentro dessa lógica que surgem os protocolos de perguntas.

O experimento das 36 perguntas e a construção da intimidade

O estudo publicado em 1997 propôs algo direto. Duas pessoas que não se conhecem passam por uma sequência de perguntas divididas em três blocos, com níveis crescentes de exposição pessoal. A lógica não era “fazer alguém se apaixonar”, mas observar como a autorrevelação mútua altera a percepção de proximidade.

Fora do experimento, esse tipo de abertura costuma acontecer de forma lenta e irregular. No protocolo, ela é organizada.

Foi isso que fez o estudo ganhar visibilidade anos depois. Não pela complexidade, mas pela sensação de que havia ali um método replicável — uma espécie de atalho possível para a intimidade.

O problema é que a popularização do experimento trouxe uma interpretação que não aparece no estudo original: a ideia de que responder às perguntas necessariamente cria conexão.

O que os resultados sugerem é mais específico. Quando duas pessoas compartilham informações pessoais de forma progressiva e recíproca, a sensação de intimidade pode surgir mais rapidamente. Isso não significa, porém, que o vínculo se sustentará depois, nem que existe compatibilidade ou correspondência fora daquele contexto.

Em outras palavras, o experimento organiza uma experiência. Ele não garante um resultado.

O que acontece no cérebro quando o vínculo se intensifica

Parte da relevância das pesquisas de Aron também aparece nos estudos sobre o que acontece no cérebro em situações de vínculo intenso. Pesquisas com ressonância magnética funcional identificaram a participação do sistema de recompensa, incluindo regiões relacionadas à dopamina, à motivação e à busca por recompensas.

Isso ajuda a compreender por que determinadas experiências de conexão podem parecer tão marcantes. Também contribui para explicar por que o afastamento pode ser percebido como uma quebra abrupta de algo que continua ativo internamente.

Essa ativação, entretanto, não permite concluir sozinha que existe amor, compatibilidade ou um vínculo saudável. Experiências emocionais intensas envolvem diferentes fatores, como expectativas, contexto, reciprocidade, história pessoal e formas de interpretar o relacionamento.

A relevância de Arthur Aron hoje

Em um contexto no qual muitas interações são mediadas por estímulos rápidos e contatos superficiais, a proposta de Aron chama atenção justamente por seguir na direção oposta. Ela exige tempo, presença, reciprocidade e algum nível de exposição emocional — elementos que nem sempre são simples de sustentar.

Isso não significa que o método produza o mesmo efeito em todas as pessoas. Algumas podem considerar a experiência interessante, enquanto outras podem percebê-la como artificial, invasiva ou intensa demais. O protocolo também não substitui o tempo necessário para conhecer como alguém age em diferentes situações.

Sua importância está menos na promessa de criar um vínculo e mais na possibilidade de observar alguns dos processos envolvidos na aproximação entre duas pessoas.

Conclusão

Arthur Aron não criou uma fórmula para gerar conexão. O que ele fez foi organizar um processo que normalmente acontece de maneira difusa, tornando possível observar como a proximidade pode ser construída por meio da autorrevelação progressiva e recíproca.

Ao mesmo tempo, a popularização das 36 perguntas criou uma expectativa que o próprio estudo não sustenta. O experimento não produz vínculo por si só. Ele estrutura uma experiência que, fora daquele contexto, depende de tempo, reciprocidade, compatibilidade e continuidade.

Talvez seja por isso que ele continua sendo citado. Não porque resolva a complexidade das relações, mas porque permite observar, com alguma clareza, como certas aproximações começam — e por que nem todas continuam.

Autores e obras que dialogam com esta reflexão

  • ARON, Arthur; MELINAT, Elaine; ARON, Elaine N.; VALLONE, Robert D.; BALIN, Renee J. The experimental generation of interpersonal closeness: a procedure and some preliminary findings. Personality and Social Psychology Bulletin, v. 23, n. 4, p. 363-377, 1997.
  • ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde: CID-11. Genebra: OMS, 2022.

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