O Ciclo do Alívio: Superando a Tricotilomania

Um olhar integrado entre a Terapia Cognitivo-Comportamental e a Análise do Comportamento para retomar o controle

Por Eduardo Brancaglioni Marquetti Lazaro, CRP 06/199338 em 11/12/2025 às 20:08 | atualizado em 17/07/2026 às 11:05

Tempo estimado de leitura: 4 min

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Imagine que suas mãos possuem uma memória própria e que em momentos de silêncio ou tensão elas buscam um caminho conhecido para encontrar alívio. Para muitas pessoas esse caminho envolve o ato de arrancar os próprios cabelos ou pelos corporais. O que pode parecer um simples tique para quem observa de fora é na verdade uma batalha interna complexa e muitas vezes silenciosa. A compreensão profunda desse comportamento exige que unamos duas das mais robustas escolas da psicologia. De um lado temos a Análise Experimental do Comportamento que nos ajuda a entender a função da ação. Do outro temos a Terapia Cognitivo-Comportamental que ilumina os pensamentos que antecedem o gesto.

Ao olharmos para a saúde mental sob a ótica da Organização Mundial da Saúde (OMS), entendemos que saúde não é apenas a ausência de doença mas um estado completo de bem-estar físico, mental e social. Nesse contexto a Tricotilomania é detalhada no DSM-5-TR (seção de Transtornos Obsessivo-Compulsivos e Relacionados) e é classificada como Tricotilomania no CID-11 (código 6B25), correspondendo ao CID-10 (código F63.3). Trata-se de uma condição clínica que afeta a funcionalidade e a autoimagem do indivíduo e exige uma abordagem compassiva e técnica.

Para desatar os nós desse comportamento precisamos consultar B.F. Skinner e o Behaviorismo Radical. Skinner nos ensinou que todo comportamento tem uma função e é mantido pelas suas consequências. Na tricotilomania o ato de arrancar o fio raramente é sobre a dor física mas sim sobre o que chamamos de reforço negativo. Este é um conceito técnico que significa a remoção de um estímulo aversivo. Em termos simples imagine que você sente uma pressão interna insuportável ou uma ansiedade crescente. Ao arrancar o fio essa sensação desagradável desaparece momentaneamente. O cérebro então aprende que aquela ação é a chave que desliga o desconforto. Torna-se um mecanismo de regulação emocional imediata, ainda que traga prejuízos a longo prazo.

Enquanto Skinner nos mostra a mecânica do hábito, Aaron Beck e a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) nos convidam a investigar a arquitetura dos pensamentos. Beck postula que não são os eventos em si que nos afetam mas a interpretação que fazemos deles. No caso da tricotilomania o paciente muitas vezes é guiado por crenças permissivas ou distorções cognitivas. A distorção cognitiva é uma falha no processamento da realidade como uma lente embaçada que nos faz ver perigo ou necessidade onde não há. Um paciente pode pensar "só mais um fio para igualar a textura e eu paro" ou "eu preciso fazer isso para me concentrar". A TCC atua ajudando o indivíduo a identificar esses pensamentos sabotadores antes que a mão execute o comando.

A união dessas forças ocorre de maneira brilhante no tratamento. Utilizamos técnicas da Análise do Comportamento para mapear os antecedentes. Isso significa identificar o que acontece antes do comportamento como tédio, leitura, assistir televisão ou momentos de alta exigência cognitiva. Com esse mapa em mãos aplicamos estratégias comportamentais como o Treino de Reversão de Hábitos que ensina o paciente a engajar-se em uma resposta competitiva, ou seja, uma ação fisicamente incompatível com o arrancar de cabelos como fechar os punhos suavemente. Simultaneamente usamos a TCC para reestruturar a culpa e a vergonha que geralmente sucedem o ato, quebrando o ciclo vicioso onde o estresse pós-comportamento gera mais ansiedade e consequentemente mais tricotilomania.

Concluir esse processo de mudança é, em última análise, um exercício de reescrita biológica. A neurociência moderna nos oferece o conceito de neuroplasticidade que é a capacidade do cérebro de formar novas conexões neurais ao longo da vida. Quando integramos a identificação de pensamentos de Beck com a modificação de contingências de Skinner não estamos apenas mudando um hábito superficial. Estamos literalmente ensinando ao cérebro novos caminhos para obter conforto e segurança. Ao substituir o alívio imediato do reforço negativo por estratégias de enfrentamento saudáveis, o paciente descobre que suas mãos podem servir não para ferir, mas para construir uma nova história de autonomia e bem-estar.

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Referências bibliográficas

  • AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: DSM-5-TR. 5. ed. texto rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.BECK, Judith S. Terapia Cognitivo-Comportamental: Teoria e Prática. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2021.ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde: CID-10. 10. rev. São Paulo: EDUSP, 1997.ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde: CID-11. Genebra: OMS, 2019. Disponível em: https://icd.who.int/. Acesso em: 10 dez. 2023.SKINNER, Burrhus F. Ciência e Comportamento Humano. 11. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.WOODS, Douglas W.; TWOHIG, Michael P. Trichotillomania: An ACT-enhanced Behavior Therapy Approach Workbook. New York: Oxford University Press, 2008.

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