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A dor psicológica

Autor: Eduardo Brancaglioni Marquetti Lazaro

Publicado em: 15/08/2025 09:06:00

Tempo de leitura: aproximadamente 7 minutos

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A dor psicológica

A gente vive sob um peso imposto, um dia após o outro. É o peso de uma sombra que teima em nos seguir, a sombra da tristeza, do medo, daquela ansiedade que aperta e tanto que nos encurrala a fugir. Para tentar escapar, a gente se ocupa, preenche o tempo com tudo o que poderia nos afastar da dor. Fazemos do nosso dia um pagamento, um imposto que a gente mesmo se cobra, com momentos que parecem importantes, só para acreditar que a sombra não vai encontrar um lugar para se sentar. Mas ela não some. Ela só espera, calma.

Ela nos fala através de um teatro silencioso, em palavras que nunca saíram da boca, mas que ecoam mais alto que qualquer grito. É uma cena ensaiada nos sonhos de um descanso mal aproveitado, como quem procura repouso, mas não se livra de ensaios que a mente faz inconscientemente. E, quando a gente acorda, se dá por nós, já está rodopiando sobre nós mesmos, confuso pela tontura de uma dança forçada. Nós sabemos que não cabemos nesse papel, que somos estranhos nessa peça que o ambiente nos força a encenar. E, mesmo assim, a gente continua, seguindo um roteiro que se alimenta de dores tão antigas que o mundo fica distorcido. A gente passa a viver sob regras que nós mesmos criamos, e toda a leveza se perde. Nessa correria por novos ares, a gente acaba se envolvendo com relações que são, no fundo, impostoras. Elas têm nomes e rostos diferentes, mas a dança da desilusão e do sofrimento é a mesma. O que parecia novo é só um eco do que já foi, um laço repetido que nos faz duvidar de tudo e, pior, duvidar da gente mesmo.

Toda essa guerra silenciosa deixa uma marca. A gente sente no corpo o que a alma está calando. Um peso nos ombros que não vai embora, um nó no estômago, uma dor de cabeça que insiste em ficar. O nosso corpo se torna o nosso livro de contabilidade, registrando cada custo dessa fuga, nos mostrando que a dor que a gente tenta esconder na mente se manifesta no físico.

A gente achava que corria livre pelo mundo, mas quando paramos para nos olhar, percebemos que o mundo era, na verdade, um casulo apertado que nós mesmos tecemos. Ele foi feito de uma linha tecida com a fuga da dor, na ilusão de ser um gesso para cada parte quebrada. A dor era uma peça inseparável de algo muito maior, mas maior ainda foi a nossa permissão de viver sem saber que havia outra dança, outras cores, outros caminhos, porque não tínhamos um mapa nem uma bússola.

A solução não é se trancar. É aprender a navegar pelos mares e marés que não controlamos, desenvolvendo habilidades para encontrar clareza onde antes só havia escuridão e desamparo. A sombra, a dor, é inevitável. Mas, em um local apropriado, com o auxílio de quem, com a experiência nesta clínica das dores da vida, está disposto a entender as particularidades de nossa história, nós mesmos podemos construir um caminho da dor para a autoabsolvição. Porque a saúde da mente não é a ausência de dor. É a coragem de ser quem a gente é, de caminhar em direção ao que importa, mesmo sabendo que a sombra ainda nos acompanha.

 

 A Saída do Palco

O bem-estar, então, não é apenas parar a corrida. É, no teatro da nossa mente, recusar o roteiro que nos foi dado. É sair do palco, mesmo rodopiando, e caminhar em direção a um assento, como espectador da nossa própria vida. Lá, com os olhos de quem entende, a gente pode perdoar o personagem que fomos, aceitando que ele só queria fugir. E é essa autoabsolvição, esse perdão que nos damos, que nos permite viver sem máscaras, sem o peso da performance, prontos para uma nova cena onde nós somos, finalmente, o autor e não apenas o ator.

 A Isenção do Imposto

O caminho para a autoabsolvição começa quando a gente se cansa de pagar o imposto da fuga. Percebemos que as distrações, o excesso de ocupação, nunca nos deram a isenção que buscávamos, mas apenas uma nova dívida. A terapia é a contabilidade que nos mostra o quanto temos pago por algo que não nos pertence. E a coragem de ficar, de encarar a sombra, é a primeira e mais importante decisão para zerar a conta. A sombra não some, mas o peso dela deixa de ser um imposto sobre a nossa vida.

A Vida Além do Casulo

Quando o casulo se revela uma prisão, a autoabsolvição é o que nos dá coragem para perfurar suas paredes. A gente aceita que o gesso foi uma ilusão de segurança, e que a verdadeira proteção não está no isolamento, mas na força que construímos para navegar a vida. A terapia nos dá o mapa e a bússola, mas a jornada é nossa. O bem-estar é essa liberdade de ser, de aceitar que somos frágeis e que a dor nos acompanha, mas que, ainda assim, o mundo lá fora é muito maior, e muito mais interessante, do que qualquer casulo.

A nossa história, narrada aqui com poesia, é um reflexo direto de processos estudados na psicologia clínica. As metáforas que usamos convergem em pontos importantes da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e da Análise Experimental do Comportamento (AEC).

O Grito da Sombra: O Papel da TCC

A nossa jornada começa com uma fuga. A "sombra da ansiedade e do medo" representa as emoções e sensações que evitamos a todo custo. No "teatro silencioso da nossa mente," temos um monólogo de "palavras que nunca saíram da boca." Na TCC, chamamos isso de pensamentos automáticos disfuncionais e crenças nucleares. São as visões distorcidas que construímos sobre nós mesmos e o mundo, que nos levam a seguir um "roteiro" de regras rígidas e comportamentos que só aumentam o nosso sofrimento. A TCC nos ajuda a identificar e a questionar esses pensamentos e crenças, nos dando a oportunidade de reescrever o roteiro, encontrando outras maneiras de pensar e agir.

A Dança Forçada e o Casulo: Os Vislumbres da AEC

Quando o texto fala em uma "dança forçada" e no "casulo apertado que nós mesmos tecemos", estamos nos referindo a comportamentos de fuga e isolamento. Na AEC, a ciência por trás da intervenção comportamental, entendemos que nossos comportamentos são moldados pelo ambiente. A dança forçada é mantida pelo alívio que sentimos ao escapar de algo que nos causa dor. O casulo, por mais que pareça um abrigo, é um comportamento de esquiva que nos aprisiona. A AEC nos ajuda a entender as leis que regem esses comportamentos, nos permitindo criar novas rotas de ação que nos levem a um lugar de maior bem-estar e liberdade.

A Convergência: Do Entendimento à Ação

Tanto a TCC quanto a AEC entendem que a terapia é o "lugar seguro" para o aprendizado. A TCC nos dá a clareza sobre o nosso "roteiro interno," e a AEC nos ajuda a usar essa clareza para "caminhar em direção ao que importa." A união das duas abordagens é poderosa: a gente não só entende por que age de determinada forma, mas também desenvolve habilidades de discernimento e se compromete com uma nova rota, uma que nos leva a viver uma vida com propósito e significado. É a passagem do entendimento para a ação. O caminho da dor para a autoabsolvição é uma jornada de construção, onde a sombra não desaparece, mas a gente aprende a navegar, com um novo mapa e uma nova bússola.

Algumas fontes para aprofundar

  • Hayes, S. C., Wilson, K. G., & Strosahl, K. (2020). Terapia de Aceitação e Compromisso: Um Guia para a Teoria, Pesquisa e Prática Clínica. (Originalmente Acceptance and Commitment Therapy).
  • Martell, C. R., Dimidjian, S., & Herman-Dunn, R. (2012). Ativação Comportamental para a Depressão: Um Guia do Terapeuta. (Originalmente Behavioral activation for depression: A clinician's guide).
  • Barlow, D. H. (2014). Transtornos da Ansiedade: O que Fazer?. (Originalmente Anxiety and its disorders).
  • Sapolsky, R. M. (2017). Por que as zebras não têm úlceras: Guia completo sobre o estresse, doenças relacionadas e estratégias para lidar com eles. (Originalmente Why zebras don't get ulcers).
  • Beck, J. S. (2022). Terapia Cognitivo-Comportamental: Teoria e Prática. (Originalmente Cognitive Behavior Therapy: Basics and Beyond)

Se você chegou até este ponto de ler o que expus, é um sinal de que você pode ir além. Estendo minha mão para te ajudar a subir os degraus necessários até você sair deste estado emocional dolorido. 

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