O labirinto de nós mesmos: entre escolhas e escolhas de escolhas

Uma análise da liberdade vigiada sob as lentes do behaviorismo radical, da terapia cognitiva e da neurociência das decisões

Por Eduardo Brancaglioni Marquetti Lazaro, CRP 06/199338 em 08/12/2025 às 17:11 | atualizado em 16/07/2026 às 04:45

Tempo estimado de leitura: 4 min

Compartilhe:

1- A soma vetorial do passado

Existe uma angústia peculiar que nos assalta nas horas mortas da madrugada, uma sensação de que nossa vida presente não é um campo aberto de possibilidades, mas um corredor estreito esculpido por cada "sim" e cada "não" que dissemos anos atrás. A ideia de que somos "eternos reféns de nossas escolhas" ressoa profundamente porque toca na ferida narcísica da nossa suposta autonomia. Sentimo-nos, paradoxalmente, autores e vítimas da própria biografia. A psicologia clínica e as neurociências modernas sugerem que essa sensação não é infundada, mas a mecânica que nos prende é muito mais complexa e fascinante do que um simples determinismo fatalista.

2- As correntes invisíveis do reforço Para entender por que repetimos padrões que juramos abandonar, precisamos revisitar a obra de B.F. Skinner. Em seu livro Beyond Freedom and Dignity (Para Além da Liberdade e da Dignidade), Skinner argumenta que a noção romântica de um "eu livre" que decide no vácuo é uma ilusão pré-científica. Para a Análise Experimental do Comportamento, nossas "escolhas" atuais são, em grande parte, o resultado da nossa história de reforçamento.

Isso significa que, se no passado uma determinada escolha (por exemplo, evitar um confronto difícil) trouxe alívio imediato — o que chamamos de reforço negativo —, nosso organismo aprendeu a repetir esse comportamento. Tornamo-nos "reféns" não da escolha em si, mas das consequências que a moldaram. Cada vez que escolhemos o caminho de menor resistência e somos recompensados por isso, a probabilidade de escolhermos um caminho diferente e mais saudável no futuro diminui. Estamos presos em uma teia de contingências que nós mesmos, em interação com o ambiente, ajudamos a tecer.

3- O mapa cognitivo do cárcere Se Skinner nos mostra as grades externas do comportamento, Aaron Beck, o pai da Terapia Cognitivo-Comportamental, ilumina as trancas internas. Nossas escolhas passadas não apenas moldam comportamentos; elas solidificam o que Beck chamou de esquemas cognitivos. Estas são estruturas mentais rígidas, formas de perceber a si mesmo e ao mundo, forjadas a partir de experiências precoces e repetidas.

Se, por exemplo, escolhas passadas levaram a fracassos dolorosos, o indivíduo pode desenvolver uma crença nuclear de incompetência ("eu não sou capaz"). Uma vez instalada, essa crença atua como um filtro seletivo. O cérebro passa a ignorar evidências de sucesso e a magnificar qualquer sinal de erro. O indivíduo torna-se refém de suas escolhas porque sua própria mente sabota a percepção de novas alternativas. Ele não escolhe o fracasso hoje porque quer, mas porque seu esquema cognitivo não lhe permite visualizar o sucesso como uma opção viável.

4 - A neurobiologia do hábito Do ponto de vista das neurociências, ser refém de escolhas passadas é uma questão de eficiência energética. O cérebro humano é uma máquina de prever e automatizar. Quando fazemos uma escolha repetidamente, criamos e fortalecemos caminhos neurais específicos, um processo conhecido como potenciação de longa duração.

Com o tempo, comportamentos que antes exigiam deliberação consciente do córtex pré-frontal (a área executiva do cérebro, responsável pelo planejamento) são transferidos para estruturas mais primitivas e automáticas, como os gânglios da base. O que era uma "escolha" torna-se um hábito. A sensação de estar preso ocorre porque tentar mudar uma rota neural consolidada exige um gasto energético massivo e consciente, lutando contra a própria biologia que prefere o caminho já asfaltado da repetição, mesmo que esse caminho leve ao sofrimento.

5 - A chave da cela A constatação de que somos moldados por nossa história biológica e ambiental pode parecer desoladora, mas é justamente aí que reside a verdadeira esperança clínica. Se fôssemos reféns de um "destino" místico, nada poderia ser feito. Mas, sendo reféns de processos de aprendizagem e neurobiologia, temos uma saída.

A ciência da mudança baseia-se na neuroplasticidade — a capacidade vitalícia do cérebro de reorganizar suas conexões. Não podemos apagar as escolhas do passado, mas podemos, através de intervenções estruturadas como a TCC e a ativação comportamental, começar a construir novas histórias de reforçamento e desafiar crenças antigas. A liberdade não é a ausência de influência do passado, mas a habilidade desenvolvida de notar essas influências e, no momento presente, fazer uma escolha ligeiramente diferente, plantando a semente de um futuro novo, um milímetro de cada vez.

Tiko quer saber

Esse artigo ajudou você a entender melhor o tema?

Sua reação ajuda o Psiconsultório a entender quais conteúdos estão claros e úteis. Não precisa escrever nada: basta marcar se a leitura ajudou ou não.

O que você achou?

Próximo passo

Quer conversar com um psicólogo?

Use a leitura deste artigo para organizar dúvidas e, quando fizer sentido, Veja como cada psicólogo se apresenta e os detalhes do perfil antes de falar diretamente com o profissional.

Tiko e Teka apresentando o Psiconsultório Cast

Psiconsultório Cast

Quer entender saúde mental de um jeito mais leve?

No Psiconsultório Cast, Tiko e Teka conversam sobre temas de psicologia e saúde mental com linguagem simples, exemplos do dia a dia e limites claros. É um conteúdo para ajudar na compreensão, sem substituir avaliação profissional, orientação individual ou atendimento psicológico.

Psiconsultório Cast

Ouça e acompanhe

O artigo foi escrito a partir da autoria indicada na página e pode considerar referências teóricas, técnicas ou bibliográficas relacionadas ao tema.

Referências bibliográficas

  • BECK, Aaron T. Terapia Cognitiva da Depressão. Porto Alegre: Artmed, 1997.BECK, Judith S. Terapia Cognitivo-Comportamental: Teoria e Prática. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2021.KANDEL, Eric R. Em Busca da Memória: O Nascimento de uma Nova Ciência da Mente. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.SKINNER, Burrhus Frederic. Ciência e Comportamento Humano. 11. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.SKINNER, Burrhus Frederic. O Mito da Liberdade. Rio de Janeiro: Bloch, 1977.

Este conteúdo é informativo e educativo. Não substitui avaliação, diagnóstico, orientação individual ou atendimento psicológico. Em caso de crise ou risco imediato, procure atendimento de urgência ou ligue para o CVV 188.

Assista também

Vídeos do canal

Ver canal no YouTube

Continue lendo

Leituras complementares

Ver todos os artigos do blog

Se você estiver passando por uma crise suicida, você pode entrar em contato com o CVV (Centro de Valorização da Vida) pelo telefone 188, com atendimento gratuito 24 horas, ou pelo site cvv.org.br. Em situações de emergência, procure o hospital mais próximo. Havendo risco de morte, ligue para o SAMU pelo número 192.