Regulação do Sistema Nervoso Autônomo

entre o que o corpo faz e o que a pessoa percebe

Por Eduardo Brancaglioni Marquetti Lazaro, CRP 06/199338 em 02/10/2025 às 01:33 | atualizado em 16/07/2026 às 04:45

Tempo estimado de leitura: 5 min

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Regulação do Sistema Nervoso Autônomo: entre o que o corpo faz e o que a pessoa percebe

Nem sempre a ansiedade começa no pensamento. Às vezes, quando a pessoa percebe, o corpo já mudou de estado. Respiração mais curta, batimento acelerado, uma tensão difícil de localizar. A interpretação vem depois, tentando explicar algo que já está acontecendo.

É por isso que a regulação do Sistema Nervoso Autônomo (SNA) costuma ocupar um lugar central no manejo clínico do estresse e da ansiedade. Não como uma camada “biológica separada”, mas como parte do próprio fenômeno. Quando o nível de ativação sobe demais, a capacidade de análise diminui. E não por falta de esforço.

O funcionamento não é binário

A divisão clássica entre sistema simpático e parassimpático ajuda a entender o básico, mas simplifica demais o que acontece na prática.

O simpático tende a preparar o organismo para ação. Acelera, mobiliza energia, aumenta vigilância. Não entra em cena só em situações extremas — ele participa de qualquer estado que exija prontidão.

O parassimpático, por outro lado, está mais associado à desaceleração, à digestão, à recuperação. Mas também não é um estado único de “calma”. Ele regula, ajusta, permite transições.

O ponto não é um “ganhar” do outro. É a capacidade de alternar entre estados de forma relativamente flexível. Quando isso se perde, o corpo pode ficar mais tempo do que o necessário em alerta, ou ter dificuldade de retornar a um nível basal.

Quando a ativação se sustenta

Em situações pontuais, a resposta de alerta cumpre função. O problema aparece quando ela se prolonga sem um evento claro, ou quando pequenas demandas passam a ser lidas como ameaça.

Isso pode acontecer por aprendizado, por repetição, por contexto. O organismo passa a operar com um limiar mais baixo para ativação. Não é uma escolha consciente.

Nesses casos, tentar intervir apenas no conteúdo do pensamento costuma ser insuficiente. A pessoa pode até reconhecer que está antecipando cenários negativos, mas isso não reduz a resposta corporal naquele momento.

A via corporal como ponto de entrada

Algumas intervenções fazem sentido justamente por atuarem “de baixo para cima”, partindo do corpo.

A respiração é um dos exemplos mais acessíveis. Alterar o ritmo respiratório — especialmente alongando a expiração — pode favorecer uma desaceleração gradual. Não é imediato, nem padronizado, mas cria uma possibilidade de ajuste.

A exposição ao frio, sobretudo na região do rosto, ativa reflexos fisiológicos relacionados à conservação de energia. Em algumas situações, isso reduz a frequência cardíaca de forma perceptível. Em outras, o efeito é discreto.

Já as estratégias de aterramento operam em outra direção. Ao focar em estímulos concretos do ambiente, a atenção é deslocada de cenários internos para dados presentes. Não elimina o estado de ativação, mas pode reduzir a intensidade.

Perceber antes que escale

A interocepção — a capacidade de perceber sinais internos do corpo — entra como um recurso mais refinado. Identificar mudanças sutis antes que se intensifiquem amplia a possibilidade de intervenção.

Nem todo mundo consegue fazer isso no início. Em muitos casos, a percepção só ocorre quando a ativação já está alta. Ainda assim, com prática, esse intervalo pode diminuir.

Limites e cuidados

Essas estratégias não substituem acompanhamento psicológico. Funcionam como apoio dentro de um processo mais amplo, que considera história, contexto e padrões individuais.

Além disso, a aplicação de técnicas em Psicologia exige base reconhecida e responsabilidade no uso. Evita-se, por exemplo, apresentar intervenções como soluções universais ou fazer promessas de resultado. Esse cuidado está alinhado aos princípios éticos da prática profissional, que priorizam qualidade técnica, respeito ao sujeito e uso fundamentado de métodos .

Outro ponto: respostas variam. O que ajuda uma pessoa pode não produzir o mesmo efeito em outra. Em alguns casos, determinadas práticas podem até gerar desconforto, dependendo de como são utilizadas.

O que muda, na prática

Regulação não significa ausência de estresse. O organismo continua reagindo ao ambiente. A diferença está na capacidade de retornar.

Um sistema mais ajustado não é aquele que permanece estável o tempo todo, mas aquele que consegue sair de estados de ativação sem permanecer neles por períodos prolongados.

Isso não elimina dificuldades, mas altera a forma como elas são vividas. Em vez de uma resposta que se sustenta por inércia, há mais espaço para variação. E, com isso, mais possibilidade de escolha ao longo do processo.

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Referências bibliográficas

  • AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5-TR. 5. ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
  • CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Resolução CFP nº 010/05: Aprova o Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília, DF: CFP, 2005.
  • ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. CID-11: Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde. 11. ed. Genebra: OMS, 2022.
  • Porges, S. W. Teoria polivagal: fundamentos neurofisiológicos das emoções, apego, comunicação e autorregulação. São Paulo: Cultrix, 2011.

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