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A dor psicológica

Por Eduardo Brancaglioni Marquetti Lazaro, CRP 06/199338 • Publicado em 4 de abril de 2026 • Atualizado em 19 de agosto de 2026

Tempo estimado de leitura: 6 min

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A gente vive sob um peso imposto, um dia após o outro. É o peso de uma sombra que teima em nos seguir, a sombra da tristeza, do medo, daquela ansiedade que aperta tanto que nos encurrala a fugir. Para tentar escapar, a gente se ocupa, preenche o tempo com tudo o que poderia nos afastar da dor. Fazemos do nosso dia um pagamento, um imposto que a gente mesmo se cobra, com momentos que parecem importantes, só para acreditar que a sombra não vai encontrar um lugar para se sentar. Mas ela não some. Ela só espera, calma.

Ela nos fala através de um teatro silencioso, em palavras que nunca saíram da boca, mas que ecoam mais alto que qualquer grito. É uma cena ensaiada nos sonhos de um descanso mal aproveitado, como quem procura repouso, mas não se livra de ensaios que a mente faz inconscientemente. E, quando a gente acorda e se dá por nós, já está rodopiando sobre nós mesmos, confuso pela tontura de uma daça forçada. Nós sabemos que não cabemos nesse papel, que somos estranhos nessa peça que o ambiente nos força a encenar.

E, mesmo assim, a gente continua, seguindo um roteiro que se alimenta de dores tão antigas que o mundo fica distorcido. A gente passa a viver sob regras que nós mesmos criamos, e toda a leveza se perde. Nessa correria por novos ares, a gente acaba se envolvendo com relações que são, no fundo, impostoras. Elas têm nomes e rostos diferentes, mas a dança da desilusão e do sofrimento é a mesma. O que parecia novo é só um eco do que já foi, um laço repetido que nos faz duvidar de tudo e, pior, duvidar da gente mesmo.

Toda essa guerra silenciosa deixa uma marca. A gente sente no corpo o que a alma está calando. Um peso nos ombros que não vai embora, um nó no estômago, uma dor de cabeça que insiste em ficar. O nosso corpo se torna o nosso livro de contabilidade, registrando cada custo dessa fuga, nos mostrando que a dor que a gente tenta esconder na mente se manifesta no físico.

A gente achava que corria livre pelo mundo, mas quando paramos para nos olhar, percebemos que o mundo era, na verdade, um casulo apertado que nós mesmos tecemos. Ele foi feito de uma linha tecida com a fuga da dor, na ilusão de ser um amparo para cada parte quebrada. A dor era uma peça inseparável de algo muito maior, mas maior ainda foi a nossa permissão de viver sem saber que havia outra dança, outras cores, outros caminhos, porque não tínhamos um mapa nem uma bússola.

A saída do palco

A solução não é se trancar. É desenvolver habilidades para navegar pelos mares e marés que não controlamos, encontrando clareza onde antes havia desamparo. A sombra, a dor, é inevitável. Mas, em um local apropriado e com auxílio profissional, é possível entender as particularidades de nossa história e construir um caminho em direção à autocompaixão. Porque a saúde da mente não é a ausência de dor. É a coragem de ser quem a gente é, de caminhar em direção ao que importa, mesmo sabendo que a sombra ainda nos acompanha.

O bem-estar, então, não é apenas parar a corrida. É, no teatro da nossa mente, recusar o roteiro que nos foi dado. É sair do palco e caminhar em direção a um assento, como espectador da nossa própria vida. Lá, com olhos de quem compreende, a gente pode acolher o personagem que fomos, aceitando que ele só buscou formas de se proteger. E é esse acolhimento que nos permite viver sem o peso da performance, prontos para uma nova cena onde somos os autores da nossa própria jornada.

A isenção do imposto

O caminho para a autonomia começa quando a gente se cansa de pagar o imposto da fuga. Percebemos que as distrações e o excesso de ocupação nunca nos deram a isenção que buscávamos, mas apenas uma nova dívida. A terapia é o espaço que nos mostra o quanto temos pago por roteiros que não nos pertencem. E a coragem de encarar a sombra é a primeira decisão para reequilibrar essa conta. A sombra não desaparece, mas ela deixa de ser um imposto sobre a nossa vida.

Quando o casulo se revela uma prisão, a autocompaixão é o que nos dá coragem para perfurar suas paredes. A gente aceita que o isolamento foi uma tentativa de segurança, e que a verdadeira proteção está na flexibilidade que construímos para navegar a vida. A terapia oferece o mapa e a bússola, mas a jornada é sua. O bem-estar é essa liberdade de ser, de aceitar nossas fragilidades e descobrir que o mundo lá fora é muito mais interessante do que qualquer casulo.

Notas técnicas e éticas

Esta narrativa reflete processos estudados na psicologia clínica, convergindo com a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e a Análise Experimental do Comportamento (AEC).

  • O papel da TCC: No "teatro da mente", os monólogos silenciosos representam pensamentos automáticos e crenças nucleares. A TCC auxilia na identificação e no questionamento dessas distorções, permitindo a reescrita do roteiro interno.
  • Os vislumbres da AEC: A "dança forçada" e o "casulo" ilustram comportamentos de esquiva e isolamento moldados pelo ambiente. A AEC ajuda a compreender as contingências que mantêm esses padrões, possibilitando a criação de novas rotas de ação voltadas para o que o indivíduo valoriza.

A união dessas abordagens oferece clareza e ferramentas para transformar o entendimento em ação. Se você se identificou com este percurso, saiba que é possível ir além. Coloco-me à disposição para, de forma colaborativa, explorarmos as ferramentas necessárias para que você possa lidar com esse estado emocional e reencontrar seu propósito.

Autores e obras que dialogam com esta reflexão

  • Hayes, S. C., Wilson, K. G., & Strosahl, K. (2020). Terapia de Aceitação e Compromisso: Um Guia para a Teoria, Pesquisa e Prática Clínica. (Originalmente Acceptance and Commitment Therapy).
  • Martell, C. R., Dimidjian, S., & Herman-Dunn, R. (2012). Ativação Comportamental para a Depressão: Um Guia do Terapeuta. (Originalmente Behavioral activation for depression: A clinician's guide).
  • Barlow, D. H. (2014). Transtornos da Ansiedade: O que Fazer?. (Originalmente Anxiety and its disorders).
  • Sapolsky, R. M. (2017). Por que as zebras não têm úlceras: Guia completo sobre o estresse, doenças relacionadas e estratégias para lidar com eles. (Originalmente Why zebras don't get ulcers).
  • Beck, J. S. (2022). Terapia Cognitivo-Comportamental: Teoria e Prática. (Originalmente Cognitive Behavior Therapy: Basics and Beyond)

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