O capítulo 06 da Classificação Internacional de Doenças (CID-11), dedicado aos transtornos mentais, comportamentais ou do neurodesenvolvimento, inclui diferentes transtornos do humor. Eles envolvem alterações clinicamente relevantes no humor, na energia, na atividade e em outras áreas do funcionamento, mas não devem ser entendidos simplesmente como extremos de uma mesma linha emocional.
Transtornos depressivos e transtornos bipolares possuem critérios e trajetórias próprias. No transtorno bipolar, por exemplo, episódios de mania ou hipomania têm papel central na classificação. Já os transtornos depressivos não são definidos apenas por “tristeza profunda”, assim como mania não equivale apenas a euforia. Irritabilidade, alterações de energia, sono, atividade, pensamento e funcionamento podem participar desses quadros conforme o diagnóstico e o episódio.
A CID-11 oferece critérios clínicos para apoiar uma avaliação mais consistente, mas a classificação não substitui a compreensão da história e do contexto de cada pessoa. Sintomas emocionais isolados não permitem concluir a presença de um transtorno do humor.
O Papel da psicologia e o tratamento
A psicoterapia pode fazer parte do cuidado em diferentes transtornos do humor, de acordo com o quadro, a fase em que a pessoa se encontra, suas necessidades e outras condições associadas. Em alguns casos, o acompanhamento psicológico ocorre junto de tratamento médico e farmacológico; em outros, a composição do cuidado pode ser diferente.
Na depressão, abordagens como a Terapia Cognitivo-Comportamental podem trabalhar padrões de pensamento e comportamento associados ao sofrimento, além de dificuldades concretas do cotidiano. Isso não significa que pensamentos negativos sejam a causa única da depressão nem que modificá-los garanta remissão.
No transtorno bipolar, intervenções psicológicas podem incluir psicoeducação, atenção a rotinas, reconhecimento de mudanças no funcionamento e trabalho com dificuldades relacionadas ao diagnóstico e à vida cotidiana. A medicação costuma ter papel importante no tratamento do transtorno bipolar, e decisões sobre seu uso pertencem à avaliação médica individual.
O psicólogo não “reconstrói” necessariamente uma autoestima ou identidade supostamente fragmentada pela doença. O trabalho clínico pode ajudar a compreender o impacto dos episódios, os sentidos atribuídos a eles, os prejuízos produzidos e os recursos necessários para lidar com diferentes áreas da vida. Também pode contribuir para que a pessoa reconheça mudanças relevantes em seu padrão habitual, sem transformar qualquer oscilação emocional em sinal de uma nova fase.
Impacto Social e Epidemiológico
Classificações padronizadas como a CID-11 permitem que profissionais e sistemas de saúde utilizem critérios compartilhados na identificação e no registro dos transtornos. Isso também favorece estudos epidemiológicos e planejamento de políticas públicas.
A existência de uma categoria diagnóstica, porém, não transforma sofrimento emocional em doença automaticamente. Dados de prevalência descrevem populações e não funcionam como instrumento de autodiagnóstico. Da mesma forma, crises emocionais podem ocorrer fora dos transtornos do humor e precisam ser compreendidas em seu contexto.
O impacto social dessas condições pode incluir prejuízos no trabalho, nos estudos, nas relações e na autonomia, com intensidade muito variável. Barreiras de acesso ao cuidado, estigma e condições sociais também influenciam a experiência e as possibilidades de tratamento.
Conclusão:
A CID-11 oferece uma linguagem clínica importante para diferenciar transtornos do humor e organizar diagnóstico e pesquisa. Ela não reduz a experiência de uma pessoa ao código recebido nem transforma alterações de humor em diagnóstico por si sós.
O tratamento psicológico pode contribuir para diferentes objetivos clínicos, mas não há promessa de “restaurar equilíbrio emocional” ou produzir bem-estar duradouro. O cuidado depende do diagnóstico, da gravidade, da fase do quadro, das preferências da pessoa e de outros fatores avaliados individualmente.
Autores e obras que dialogam com esta reflexão
- Organização mundial da saúde. guia de referência da cid-11 (2022).
Este conteúdo é informativo e educativo. Não substitui avaliação, diagnóstico, orientação individual ou atendimento psicológico. Em caso de crise ou risco imediato, procure atendimento de urgência ou ligue para o CVV 188.